Campo de concentração da ditadura chilena é retratado em Dawson, Isla 10

O cineasta chileno Miguel Littin descreve o  sofrimento dos
ministros de Allende que foram enviados por Pinochet para Dawson, 
ilha de clima antártico, no extremo sul do Chile

Por Lúcia Rodrigues (publicado no site da revista Caros Amigos)


Dawson, Isla 10 é baseado no livro de Sérgio Bitar, ex ministro do governo Allende, que esteve preso na ilha de clima antártico, localizada no extremo sul do Chile. Os horrores vividos pelos presos políticos nesse campo de concentração são reconstruídos pelo cineasta chileno Miguel Littin de maneira impecável. Ele chega a filmar com uma câmera coberta por um capuz para retratar a sensação dos prisioneiros.

A direção de fotografia, que é assinada por seu filho Miguel Ioan Littin, também reflete a dramaticidade da realidade enfrentada pelos prisioneiros em Dawson. “Filmamos no inverno, no mesmo período em que eles estiveram presos. Por isso, se vê neve, neve e frio”, afirma o diretor de fotografia.

As regras dentro do campo são rígidas. Eles são submetidos a trabalhos forçados e são informados de que qualquer descumprimento às ordens estabelecidas serão punidas com fuzilamentos. A pressão psicológica é uma constante, os maus tratos chegam ao ponto de trancafiar três prisioneiros em uma pequena caixa, como forma de punição.

 “Aqui vocês não tem passado nem futuro”, afirma o militar que recebe os presos políticos em Dawson. A partir do momento em que os prisioneiros pisam na ilha, perdem suas identidades. Seus verdadeiros nomes são suprimidos. As Forças Armadas passam a tratá-los por números. Ilha 10 é o “nome” atribuído a Bitar, interpretado por Benjamín Vicuña.



A trama também conta com a participação de dois atores brasileiros. A reportagem da Caros Amigos conversou com Bertrand Duarte, que interpreta o arquiteto Miguel Lawner. Duarte considera que a interpretação do personagem o ajudou a conhecer a história chilena.

“Foi pedagógico. Os processos ditatoriais são muito parecidos. Brasil e Chile têm paralelos no contexto histórico da luta por democracia.” Ele ressalta que o mundo vem restaurando os processos democráticos, “apesar dos tropeços hondurenhos”.

Dawson – Isla 10, que foi indicado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo Chile, entra em cartaz no Brasil no próximo mês. Acompanhe a seguir trechos da entrevista com o cineasta chileno Miguel Littin.

Caros Amigos – Qual foi o principal objetivo ao rodar Dawson, Isla 10?

Miguel Littin - Reviver a memória histórica do que ocorreu no Chile, e que comoveu a toda a América Latina e a todos os homens com princípios humanistas no mundo. Mostrar o que aconteceu no Chile em 73, e especificamente nesse campo de concentração da ilha Dawson, onde ficaram presos os colaboradores mais íntimos do presidente Allende.

Caros Amigos – O senhor mostra no filme, que alguns militares em Dawson tinham certa simpatia pelos presos políticos do campo de concentração.

Miguel Littin – Naturalmente, porque são seres humanos e sentiam simpatia por essas pessoas, sobretudo em um lugar tão isolado, como a ilha Dawson.

Caros Amigos – Mas esses militares que simpatizavam com os presos políticos eram de baixa patente.

Miguel Littin – Tem também o comandante da base, que tomou determinadas medidas que acabou salvando a vida das pessoas, então desse ponto de vista... Nesse campo, ainda que não tenham ocorrido torturas como se tem notícia que ocorreram em outros locais, há pressões psicológicas. E o que espanta é o que o ser humano faz com outro ser humano.

Caros Amigos – O filme deixa claro que Allende foi assassinado.

Miguel Littin – Sim. Eu quero que me provem que ele se suicidou. Eu estou expondo ao Chile, ao público da América Latina e do mundo o que você viu. Se há outra visão, quero que me mostrem. Até agora ninguém levantou objeções. O filme está em cartaz no Chile, é a película com maior público, e ninguém disse nada. Allende foi assassinado por um grupo de soldados que invadiu o palácio, precedido por bombardeios aéreos e ataques de tanques que disparavam contra o La Moneda. Quem entra por ar e terra não entra para dar bom dia, entra para matar.

Caros Amigos – Ao divulgar o que aconteceu no Chile de Pinochet, o senhor considera que contribui para a punição dos militares, dos torturadores?

Miguel Littin – Acredito que sim.

Caros Amigos – Que paralelo o senhor estabelece entre o Chile de Allende e o de Bachellet?

Miguel Littin – A presidente Bachellet é uma descendente do grupo de Allende, em que me incluo também, assim como todos os sobreviventes de Dawson. O sacrifício de Allende permitiu que se restituísse a democracia. Abortaram uma revolução democrática, que respeitava as minorias. Allende foi um homem tolerante e de profundo respeito pela democracia. Seu último sacrifício em nome dessa democracia foi entregar sua vida lutando no La Moneda, para que hoje se tenha outras perspectivas.

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