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Entrevista com Bertrand Duarte, um dos protagonistas de "Dawson Ilha 10"



"Dawson mostra o sofrimento dos prisioneiros sob uma aura mais psicológica. Esse é o trunfo do filme, que não recorre a clichês. É muito inteligente e eficaz nesse sentido" - Bertrand Duarte



Dawson Ilha 10: Como foi a experiência de atuar em Dawson Ilha 10, sendo este seu primeiro trabalho internacional?
 
BD: Quando Walter Lima me ligou dizendo que havia sido escolhido para estar entre os protagonistas do novo filme de Miguel Littín, fiquei super emocionado. Não somente pela relevância da obra e do grande cineasta que é Littín, mas também pela satisfação profissional em fazer um filme fora do meu país. Aí é que cai a ficha de que você já trilhou um caminho, já "ralou" o suficiente para estar credenciado para isso.

DI: Teve dificuldade com a língua?
BD: Não, não tive. Estudei intensivamente espanhol com uma professora particular e também trabalhei especificamente as falas do roteiro. Eu já tinha estudado espanhol e tinha um conhecimento básico muito bom. Não sei se por ser ator e trabalhar muito a palavra, mas tenho uma facilidade muito grande em pegar sotaques e outros idiomas. Em Alma Corsária - filme de Carlos Reinchebach - onde interpreto o poeta paulista Rivaldo Torres, encarei o desafio e deu tudo certo. Com a cara e a coragem aceitei interpretar um paulista, sendo nordestino de origem. Um ator - guardadas as devidas limitações territoriais - não deve ter fronteiras. Só não pode é cair no ridículo. 

DI: Pode nos falar um pouco sobre seu papel como Miguel Lawner?
BD: Lawner é um personagem sensível que faz a interface entre os prisioneiros e os militares durante o período de prisão na Ilha Dawson. Dessa relação, ele é um dos poucos que consegue superar a crueldade e impor os seus conhecimentos, nascendo entre ele e um dos oficiais uma espécie de amizade e relação de confiança. Além disso, ele é o grande observador de tudo que acontece ali. Seria um segundo narrador que registra o cotidiano obscuro vivido por ele e seus companheiros.

DI: Como foi ser dirigido pelo grande cineasta Miguel Littín?
BD: Littín me surpreendeu pelo respeito que teve por mim como ator estrangeiro. Primeiro porque no meu primeiro dia de filmagens, fez todo o set me aplaudir quando me apresentei. Em segundo, porque ao perceber o meu potencial, criou novas cenas para o personagem, o que fez crescer sua importância no filme. Na estréia em Santiago, tomei um choque ao ler o meu nome nos créditos, imediatamente após aparecer o do protagonista. Ele é extraordinário como diretor, sabe o que quer.

DI: Dawson é um filme baseado em um pesado episódio real. As locações - o campo de concentração e a ilha - são as mesmas onde os ministros do governo Allende foram aprisionados. Como você se sentiu ali, representando a dor e o sofrimento que um dia já foi real?
BD: Foi fascinante. Nos emocionamos ao ver o cenário do filme montado a poucos metros de onde tinham sido montadas as instalações verdadeiras. Considero isso uma ousadia de alguém obstinado; trazer à luz do cinema a verdade sobre o passado de seu país. 

DI: Qual a importância de Dawson Ilha 10 para compreender a ditadura chilena?
  
BD: Um filme importantíssimo. Creio que Littín faz um fechamento e ao mesmo tempo volta a mostrar o sofrimento dos prisioneiros sob uma aura mais psicológica. Esse é o trunfo do filme, que não recorre a clichês. É muito inteligente e eficaz nesse sentido.

Miguel Littín estará no Brasil para lançamento de Dawson


O diretor Miguel Littín vai estar no Brasil na primeira semana de novembro para o lançamento de "Dawson Ilha 10". O filme entrará em cartaz em Salvador, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro no dia 11 de novembro. O lançamento em outras capitais acontecerá nas semanas seguintes. 

O lançamento do filme no Chile teve grande repercussão, contando com presenças ilustres, como a da então presidente Michelle Bachelet e de figuras políticas importantes.CONFIRA: 



O ator Benjamin Vincuña, Michele Bachelet e Miguel Littín na avánt premier de Dawson no Chile

Caco Monteiro fala sobre a emoção de trabalhar com Miguel Littín

Caco Monteiro como "Fernando Flores" em Dawson

Caco Monteiro é ator, com 32 anos de carreira profissional e transita entre o teatro, televisão e cinema. Já ganhou importantes prêmios no cenário do teatro baiano, como o prêmio Martins Gonçalves de Melhor Ator em 1981 e o Prêmio Bahia em Cena em 1989.

Nos anos 90 que Caco começou a fazer trabalhos na televisão e no cinema. Fez várias participações em novelas e programas humorísticos da Rede Globo (Laços de Família, Suave Veneno, Andando nas Nuvens, Corpo e Alma, Escolinha do Professor Raimundo, Ó pai Ó). No cinema, atuou em diversos filmes de curta e longa metragem, como Tieta do Agreste, de Cacá Diegues e Rádio Gogó de José Araripe Jr.

Caco Monteiro também atua no filme recém lançado Capitães de Areia, dirigido por Cecília Amado, neta do escritor Jorge Amado. 
 

Confira abaixo um depoimento de Caco Monteiro sobre sua experiência em atuar no filme Dawson Ilha 10:

"Fui convidado por Walter Lima, co-produtor do filme Dawson Ilha 10 para ser um dos atores brasileiros do filme. Antes de falar do meu personagem (Fernando Flores) falarei da minha emoção de poder trabalhar com Miguel Littin.

Eu ouvi falar de Miguel Littin pela primeira vez na década de 80, quando morava no Rio de Janeiro, quando li um livro do Gabriel García Márques chamado As aventuras de Miguel Littín Clandestino no Chile, no qual o Gabriel narra a saga do Littin, um cineasta chileno exilado na Espanha, para fazer um documentário sobre o Chile do Pinochet.
 
Admiração por Littín
Fiquei completamente fascinado ao ler aquela história de vida, de coragem e de amor pelo seu país, pois ele teve que fazer uma cirurgia plástica, para entrar no Chile, para que os soldados de Pinochet não o reconhecessem e não o matassem, e ele conseguiu não ser reconhecido por ninguém, nem pela própria mãe (é emocionante quando Garcia Marques descreve o encontro dos dois). Fiquei impressionado ao ver um diretor corajoso e obstinado em contar aquela história. Bem, assim conheci um pouco da vida do Miguel Littin e do Chile do ditador Pinochet. 
 

Gabriel García Márquez fala sobre Allende

Gabriel García Márquez, escritor vencedor do Prêmio Nobel de literatura, é um dos entrevistados no filme Acta General en Chile (1988), de Miguel Littín. O filme, gravado por Littín em condições extremamente perigosas, já que estava clandestino no Chile durante a ditadura Pinochet, fez grande sucesso internacionalmente arrebatando três prêmios no Festival de Cinema de Veneza: Prêmio Espaço Livre do Autor, Prêmio Fipresci da Crítica Internacional e Medalha de Ouro do Senado Americano.

A experiência de Littín como diretor de Acta General en Chile se transformou no livro A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, escrito por García Márquez após uma entrevista com Littín, na qual ele contou como foi o processo de entrar e dirigir um filme no Chile disfarçado de empresário uruguaio.


Confira um trecho de Acta General en Chile:






Ator baiano é destaque em Dawson

Bertrand Duarte é conhecido principalmente pela sua atuação no elogiado filme Superoutro (1992), de Edgard Navarro, que surpreendeu a platéia do Festival de Gramado (RS) naquela época e conquistou reações calorosas que renderam três Kikitos de Ouro: melhor ator (para Bertrand), melhor diretor e melhor filme.

O ator baiano transita principalmente entre o cinema e a televisão. Já fez muitos papéis em novelas da Rede Globo como A Favorita, Caminho das Índias e em minisséries como Amazônia, Dona Flor e seus Dois Maridos e Memorial Maria Moura. 

No cinema foi protagonista do filme de Carlos Reinchenbach,  Alma Corsária, recebendo o prêmio de melhor ator no festival de Cuiabá e melhor filme nos festivais de Brasília e de Pésaro (Itália). Bertrand também foi protagonista do longa-metragem de Fernando Beléns, Pau Brasil, atuação pela qual conquistou novamente o prêmio de melhor ator no Festival de Cuiabá, em 2009. Neste ano protagonizou o novo filme de Edgard Navarro, O homem que não dormia (2011) lançado no CineFuturo, em Salvador e recentemente exibido no Festival de Brasília. 

No papel de Miguel Lawner, em Dawson Ilha 10
Em Dawson Ilha 10, Bertrand Duarte tem sua estreia internacional no papel do arquiteto Miguel Lawner, que em setembro de 1973, fazia parte da equipe do presidente Salvador Allende no cargo de diretor da Corporação de Melhoramento Urbano. Com o golpe militar, Miguel Lawner também foi aprisionado na ilha Dawson.

Em breve postaremos uma entrevista exclusiva com o ator!   

Com valiosas indicações a prêmios internacionais no cenário da sétima arte, "Dawson Ilha 10" estréia no Brasil em novembro


Dawson Ilha 10, a última produção do consagrado diretor Miguel Littín, cineasta nomeado duas vezes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, estréia no Brasil em novembro após importantes indicações a prêmios do cinema internacional.

O filme foi selecionado pelo Chile para representar o país no Oscar e no Globo de Ouro. Em 2009, Dawson Ilha 10 integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Roma. Além disso, foi um dos quatro filmes a competir pelo prêmio Goya de Melhor Filme Hispano Americano (2010).

Antes mesmo de ser finalizado, Dawson Ilha 10 já havia conquistado cinco prêmios no Festival de Guadalajara na categoria “Guadalajara Construye”, destinada a filmes em processo de finalização.


Para retratar momentos de isolamento e incertezas dos presos políticos detidos pela ditadura de Auguste Pinochet na Ilha Dawson, o filme utiliza uma estética que dialoga com o psicológico dos personagens. O frio, a solidão e o medo do esquecimento criam uma atmosfera cenográfica melancólica, cinzenta e ao mesmo tempo delicada, que tornam Dawson Ilha 10 um filme diferente dos outros que abordam a pesada temática de períodos ditatoriais.


Skármenta escreve Sobre Miguel Littín



Antônio Skármenta é um escritor chileno que acumulou muitos prêmios durante sua vida e teve suas obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Skarmenta possui uma estreita relação com o cinema, tendo atuado também como roteirista e jurado em alguns festivais. O escritor já teve alguns de seus romances transpostos para o cinema, um dos destaques foi o livro Ardiente paciência, de 1985, que inspirou o filme Il Postino (O Carteiro e o Poeta), dirigido por Michael Radford. O Carteiro e o Poeta concorreu, dentre outros importantes prêmios na área de cinema, ao Oscar de 1996 em cinco categorias, incluindo a de Melhor Filme e ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora. O último romance de Skármeta, Los días del arco-íris, lançado neste ano,  já conquistou o importante Premio Iberoamericano de Narrativa Planeta-Casamérica 2011.



   Jurado Internacional Mostra de Veneza 1996. A. Skármeta, Paul Auster, Hülya Ucansu, Roman Polanski, Angelica Houston, Miriam Mafai, Callisto Cosulich (atrás)
  e Souleymane Cissé.







Sobre Miguel Littín por Antonio Skarmeta

Santiago, 22 de julho, 2009

Miguel Littín teve uma vida excepcional como criador de uma filmografia marcante na história da cinematografia latino-americana. Ele esteve permanentemente comprometido com uma visão autêntica de questões e personagens chilenos, utilizando-se de uma linguagem original e bela. As críticas nacionais e internacionais avaliaram seu trabalho  algumas vezes e indicaram-no para Palma de Ouro, em Cannes e para o Oscar em duas ocasiões.    

Com uma vasta e importante cinematografia, o diretor chileno Miguel Littín lança sua última produção no Brasil

Miguel Littín durante filmagens de Dawson Ilha 10
O chileno Miguel Littín é considerado um dos mais importantes cineastas da América Latina. O diretor assina uma vasta e premiada filmografia e já foi indicado duas vezes ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira com os filmes Actas de Marusia, em 1975 – que também esteve na seleção oficial de Cannes - e Alsino el Condor, em 1982.

Nuevo Cine Chileno
Quando tinha 25 anos, Miguel Littín dirigiu El Chacal de Nahueltoro (1969), que se tornou um clássico da cinematografia latino-americana. O filme faz parte do movimento Nuevo Cine Chileno, que nasce no final da década de 1960 e tem características similares ao movimento do Cinema Novo brasileiro. O Nuevo Cine Chileno era integrado principalmente por cineastas de esquerda como Miguel Littín, Raúl Ruiz, Aldo Francia e Patrício Guzman e tinha como principais bandeiras desenvolver uma cinematografia que influenciasse uma cultura nacional anti-colonialista, discutir conflitos sociais para conscientização das massas e atuar em uma perspectiva continental/latino-americana.

Perícias confirmam que Salvador Allende cometeu suicídio


Anúncio foi feito por Isabel Allende, senadora e filha de ex-presidente chileno

Os exames periciais realizados nos restos mortais do ex-presidente chileno Salvador Allende confirmam que ele cometeu suicídio em 11 de setembro de 1973, durante o golpe militar liderado por Augusto Pinochet para derrubar seu governo. A Justiça do país ordenou, em 15 de abril, a exumação do corpo de Allende para saber se ele foi assassinado ou se suicidou, como conta a versão histórica.

A confirmação do suicídio foi anunciada à imprensa pela senadora socialista Isabel Allende, filha do ex-governante chileno e prima da escritora de mesmo nome. O anúncio ocorreu pouco após ela tomar conhecimento do resultado das perícias realizadas pelo Serviço Médico Legal (SML) de Santiago.

Campo de concentração da ditadura chilena é retratado em Dawson, Isla 10

O cineasta chileno Miguel Littin descreve o  sofrimento dos
ministros de Allende que foram enviados por Pinochet para Dawson, 
ilha de clima antártico, no extremo sul do Chile

Por Lúcia Rodrigues (publicado no site da revista Caros Amigos)


Dawson, Isla 10 é baseado no livro de Sérgio Bitar, ex ministro do governo Allende, que esteve preso na ilha de clima antártico, localizada no extremo sul do Chile. Os horrores vividos pelos presos políticos nesse campo de concentração são reconstruídos pelo cineasta chileno Miguel Littin de maneira impecável. Ele chega a filmar com uma câmera coberta por um capuz para retratar a sensação dos prisioneiros.

A direção de fotografia, que é assinada por seu filho Miguel Ioan Littin, também reflete a dramaticidade da realidade enfrentada pelos prisioneiros em Dawson. “Filmamos no inverno, no mesmo período em que eles estiveram presos. Por isso, se vê neve, neve e frio”, afirma o diretor de fotografia.

As regras dentro do campo são rígidas. Eles são submetidos a trabalhos forçados e são informados de que qualquer descumprimento às ordens estabelecidas serão punidas com fuzilamentos. A pressão psicológica é uma constante, os maus tratos chegam ao ponto de trancafiar três prisioneiros em uma pequena caixa, como forma de punição.

 “Aqui vocês não tem passado nem futuro”, afirma o militar que recebe os presos políticos em Dawson. A partir do momento em que os prisioneiros pisam na ilha, perdem suas identidades. Seus verdadeiros nomes são suprimidos. As Forças Armadas passam a tratá-los por números. Ilha 10 é o “nome” atribuído a Bitar, interpretado por Benjamín Vicuña.